Câmara Municipal

Fórum de Políticas para Pessoas Surdas aponta necessidade de mais intérpretes de Libras

A necessidade de contar com presença de mais intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) nos espaços públicos, como hospitais e delegacias, e melhorar o acesso à educação, desde a infância até a universidade, foram alguns dos tópicos debatidos na manhã desta segunda-feira, no l Fórum de Políticas Públicas para Pessoas Surdas, promovido pela Câmara Municipal de Campo Grande. As palestras e depoimentos foram transmitidos on-line, pelas redes sociais da Casa de Leis, para evitar aglomerações por conta da pandemia de Covid-19.

Representantes de entidades relataram as dificuldades enfrentadas, conquistas e os desafios existentes para romper várias barreiras para acessibilidade. O Fórum foi proposto por iniciativa do vereador Silvio Pitu, presidente da Comissão Permanente de Acessibilidade da Câmara Municipal, e contou com tradução simultânea de intérpretes de Libras.

O presidente da AFAPS/MS (Associação de Família, amigos, profissionais e pessoas surdas), Dr. Adriano de Oliveira Gianotto, agradeceu o destaque dado à pessoa surda pela Câmara e as propostas apresentadas e debatidas em parceria. “Temos muitos surdos reclamando da falta de acessibilidade, temos pedido e desenvolvido projetos. Já recebemos muitos ‘nãos’ pela vida e ainda temos muitas portas para abrir”, disse. Ele citou hoje a dificuldade enfrentada principalmente nos hospitais, unidades de saúde e delegacias de polícia, onde a pessoa surda não conta com acessibilidade.

“Na delegacia, se somos multados, não temos acesso à comunicação. Cadê as propostas onde há intérprete na delegacia? Como vamos exigir algo? Os surdos precisam ampliar áreas de atendimento em outros setores”, afirmou Adriano Gianotto. Ele citou a conquista da Centro Municipal de Intepretação de Libras, criado pela Lei 6.341/19, proposta pelo vereador Otavio Trad e aprovada em nome de todos os vereadores na legislatura anterior. Pela central, o surdo ou pessoa com deficiência auditiva contará com a interpretação em Libras no local de atendimento, por meio de chamada de vídeo.

O vereador Silvio Pitu garantiu que vai falar sim às demandas da comunidade surda. “Usem e contem com meu mandato para lutar por vocês”, disse. Ele afirmou que já protocolou na Casa de Leis projeto que institui o Dia do Tradutor e Intérprete de Libras, além da proposta para inclusão dos programas de Libras nos componentes curriculares da Rede Municipal de Ensino. “Há possibilidade, vi muito entusiasmo nas falas. Temos que lutar, trabalhar. Vou lutar para que a gente possa ver as crianças não saírem no recreio e não poderem conversar com as outras porque não conhecem Libras”, destacou, sobre a necessidade de ensinar os demais alunos.

Educação – “Estamos lutando há anos, estarmos aqui representando as pessoas surdas é um marco histórico”, enfatizou Helen Trefzger Ballock, presidente da ASSUMS (Associação dos Surdos de Mato Grosso do Sul). Ela citou que em diversos espaços públicos o surdo encontra barreiras, lembrando que Libras é sua língua materna. Ela relatou as dificuldades enfrentadas em sua trajetória escolar, em que sua mãe atuou como intérprete voluntária na escola onde estudava para ensiná-la as disciplinas desde a quinta série até o segundo ano do Ensino Médio. Os desafios seguiram durante a faculdade, quando apenas nos dois últimos anos contou com uma intérprete e formou-se em Pedagogia. Depois, no mestrado conseguiu fazer todas as disciplinas, mas não teve acesso a profissional com Libras para orientá-la na elaboração da dissertação. “Foram dois anos perdidos. Fiz esse desabafo para vocês, pois as barreiras são complicadas”, relatou.

Ela ressaltou que esses paradigmas precisam ser rompidos, pois já há leis e decretos que garantem direitos das pessoas com deficiência auditiva. Em muitos casos, alerta Helen Trefzger Ballock, as pessoas surdas precisam expor assuntos pessoais a conhecidos para conseguir ajuda desse intérprete, seja para ir a uma delegacia registrar ocorrência ou resolver assunto financeiro no banco.

Ainda, a secretária municipal de Educação, Elza Fernandes, ressaltou que a gestão atual tem dado importância aos debates e inclusão, por meio da Subsecretaria de Pessoas com Deficiência e da importância do intérprete de Libras. “Temos o intérprete em sala de aula para os alunos e oferecemos cursos de Libras na Secretaria de Educação para qualquer pessoa que tenha interesse”, disse.

Neste ano, a Secretaria está atendendo 89 alunos com surdez e 46 com deficiência auditiva, os quais contam com apoio do tradutor nas aulas e no contraturno com a sala de recursos multifuncionais, com atendimento especializado para surdos em duas escolas. Diante de dificuldades constatadas na alfabetização, a Secretaria passou a exigir profissionais para intérprete que contassem com graduação com Licenciatura Plena e pós-graduação em Educação Especial. “Entendemos que não basta interpretar, são necessários técnicas e métodos pedagógicos para auxiliar alunos. O interprete é mediador, tem que fazer com excelência e verificar se o aluno está compreendendo”, ressaltou Lizabete Coutinho de Lucca, chefe da Divisão de Educação Especial da Semed.

Há ainda avaliação de uma banca específica para verificar se o profissional está apto. Ela destacou também o Projeto Libras na Escola, em que profissional ensina a Língua Brasileira de Sinais a todos os alunos na sala, professores e profissionais, além de sinalizar cartazes. Já o curso de Libras ofertado pela Semed tem duração de 5 anos. Na pandemia, toda a programação exibida na TV Reme conta com intérpretes. Recordou ainda que está em fase de discussão a implantação da escola bilíngue.

Acesso – Para Renato Borges Daniel, presidente da ASPCG (Associação Pantanal dos Surdos de Campo Grande), não há equidade e se houver oportunidade de acesso por Libras, a pessoa surda vai obter suas conquistas. A entidade surgiu em 2009 a partir da necessidade de inclusão no esporte. “Em 2019 mudamos nome da Associação, pois não era questão apenas de esporte, mas de luta por direitos maiores. Desde a educação até outras áreas”, afirmou, salientando a importância de colocar Libras em evidência.

Estar nos espaços públicos reivindicando que os direitos sejam garantidos é fundamental para obter conquistas, avalia a Drª Rita de Cássia Fuentes Luz Suenaga, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil, de Mato Grosso do Sul). “Fico triste quando buscamos um direito que é nosso, mas nos dão as costas”. Ela citou a importância da empatia para mudanças efetivas na sociedade e a participação das pessoas com deficiência nas discussões para que as mudanças possam realmente atendê-las.

A abertura do evento contou com a participação do vereador Carlos Augusto Borges, Carlão, presidente da Casa de Leis, do secretário estadual de Cidadania e Cultura, João César Mattogrosso, que salientaram a importância de debater esse assunto e ampliar as políticas públicas. Durante o evento, o vereador Prof. André Luís, integrante da Comissão de Acessibilidade, ressaltou que a comunidade surda precisa ter amplo acesso à Câmara para debater as soluções as suas demandas específicas.

O Fórum contou com a tradução dos intérpretes deLibras Keila Vilanova Valerio de Lima, Jessika da Silva Garcia, Juveirce Christiane Medeiros Ramos Condi e Valdir Balbueno. A transmissão ao vivo fica disponível no canal da Câmara no Youtube https://www.youtube.com/camaramunicipalcg.

#PraCegoVer – Foto 1) Em pé, intérprete faz a tradução em Libras de palestrantes e autoridades presentes. Ele usa camisa e calça pretas. Ao lado, estão sentados a secretária de Educação Elza Fernandes, o secretário João César Mattogrosso, o vereador Silvio Pitu e Dr. Adriano Gianotto. Eles usam máscaras. Ao fundo, consta o painel do I Fórum de Políticas Públicas para Pessoa Surda. Foto 2) Em pé, no Plenário Oliva Enciso, lado a lado, os participantes seguram os certificados pela participação no evento. Fim da descrição. 

Milena Crestani 

Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal  

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